9 de janeiro de 2022

III EnFrente – 2021

O evento tem por objetivo geral discutir e compreender as vivências e os desafios atuais das mulheres no contexto urbano, refletindo sobre como a desigualdade de gênero influencia a experiência cotidiana no uso dos espaços públicos e equipamentos urbanos de lazer.

Nas cidades brasileiras, até o fim do século XIX, as “senhoras” e “senhoritas”, nas raras ocasiões em que andavam nas ruas, estavam sempre acompanhadas do pai, de um irmão ou do marido. Segundo Ernani da Silva Bruno, autor de vasta produção acerca da história do Brasil, foi somente a partir da década de 1880 que mulheres desacompanhadas começaram a ser vistas nas ruas de São Paulo. Mesmo assim, essa ainda era a exceção, não a regra.

Hoje, mesmo com maior liberdade para que as mulheres possam caminhar nas ruas sozinhas, ainda é uma liberdade limitada, sendo restrita a horários e regiões. Enquanto um homem anda pelas ruas de madrugada com, no máximo, medo de ser assaltado, uma mulher, em seu lugar, teme não apenas isso, mas também pela integridade do seu próprio corpo.

Após o assédio sofrido pela estudante Andressa Lustosa, de 25 anos, ao andar de bicicleta pelas ruas de Palmas, município da região sul do Paraná, reacende-se o debate acerca da mulher enquanto usuária de um espaço urbano projetado por e para homens. Em pesquisa realizada pelo Instituto YouGov e divulgada pela organização internacional de combate à pobreza ActionAid como parte da campanha Cidades Seguras para as Mulheres, 86% das mulheres já sofreram algum tipo de assédio nos espaços urbanos. Não à toa, apenas 7% dos ciclistas nas grandes cidades são mulheres, de acordo com a associação Ciclocidade.

Além disso, o debate pode ser ampliado quando consideramos o abismo entre a insegurança vivenciada por mulheres brancas cis e a vivenciada por mulheres negras e mulheres transexuais e travestis. De acordo com levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o índice de assédio contra mulheres pretas é 22% superior ao de mulheres brancas. Para as mulheres trans e travestis, a situação consegue ser ainda mais complicada. No país que mais mata transexuais no mundo, a expectativa de vida de uma mulher trans é de 35 anos. Segundo a secretária de articulação política da Associação Nacional de Travestis e Transexuais, Bruna Benevides, a escalada da violência contra as mulheres trans, que cresceu 41% em 2020, tem relação com o cenário político do país: “É uma campanha de ódio que chamam de combate à ideologia de gênero”.

Mesmo com o poder público majoritariamente tomado por representantes masculinos, as políticas públicas formuladas por mulheres têm aos poucos contribuído para o avanço em direção a uma cidade mais democrática entre gêneros. É o caso da aprovação, em outubro de 2021, na Câmara Municipal de Curitiba da Lei de Combate à Importunação Sexual no Transporte Coletivo, a qual institui a realização de campanhas contra o assédio dentro dos ônibus da cidade e define medidas de orientação e prevenção às vítimas. Além disso, no ano de 2020, pôde-se comemorar a eleição da primeira vereadora negra da cidade de Curitiba. Mesmo assim, ainda há um longo caminho a ser trilhado e os dados explicitam a necessidade de POLÍTICAS PÚBLICAS focadas na redução da violência contra mulheres, especialmente as negras, trans, valorizando-se, ainda, a necessária proteção às trabalhadoras sexuais.

A representação dentro dos espaços de poder, no entanto, é o último estágio de uma luta que começa na base, no seio de movimentos sociais, que se expressam muitas vezes por meio de intervenções artísticas no ambiente urbano, e dentro das discussões acadêmicas, quando se fala de um “urbanismo feminista”.

Neste cenário justifica-se então a realização deste evento intitulado: “A mulher na cidade: segurança, arte e lazer”, motivado  por proporcionar conhecimento e diálogo sobre a temática, fomentando debates que construirão a realidade futura.

“Se caminhar é um ato primordialmente cultural e uma maneira crucial de existir no mundo, aquelas que se viram incapazes de caminhar até onde seus pés as levassem foram privadas não só de um exercício e de recreação, mas de uma boa parte de sua humanidade”. – Rebecca Solnit, 2001. A história do caminhar.

 

LIMA, Solange Ferraz e CARVALHO, Vânia Carneiro. O corpo na cidade: gênero, cultura material e imagem pública. Scielo. Disponível em:

< https://www.scielo.br/j/eh/a/XKXWhFDQ88QG5PdmtqLPPbT/?lang=pt>.

BALBI, Clara. Entenda o urbanismo feminista, que luta contra as chamadas cidades fálicas. Folha de São Paulo. Disponível em:

< https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2020/09/entenda-o-urbanismo-feminista-que-luta-contra-as-chamadas-cidades-falicas.shtml>.

NOGUEIRA, Sayonara Naider Bonfim e BENEVIDES, Bruna G. Dossiê dos assassinatos e da violência contra pessoas trans brasileiras. Associação Nacional de Travestis e Transexuais, 2020. Disponível em:

< https://antrabrasil.files.wordpress.com/2021/01/dossie-trans-2021-29jan2021.pdf>.

CRISTALDO, Heloisa. Pesquisa mostra que 86% das mulheres brasileiras sofreram assédio em público. Agência Brasil. Disponível em:

< https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2016-05/pesquisa-mostra-que-86-das-mulheres-brasileiras-sofreram-assedio-em>.

GUIMARÃES, Juca. Índice de assédio contra mulheres pretas é 22% superior ao de mulheres brancas. Alma Preta. Disponível em:

< https://almapreta.com/sessao/cotidiano/indice-de-assedio-contra-mulheres-pretas-e-22-superior-ao-de-mulheres-brancas>.

MINUANO, Carlos. Brasil é o país que mais mata pessoas trans; 175 foram assassinadas em 2020. Uol. Disponível em:

< https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2021/01/29/brasil-e-o-pais-que-mais-mata-pessoas-trans-175-foram-assassinadas-em-2020.htm>.

Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Infográfico: A violência contra negros e negras no Brasil. Disponível em:

< https://forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2019/11/infografico-consicencia-negra-2019-FINAL_site.pdf>.

Ciclocidade. 7%, um número que tem que mudar. Disponível em:

< https://www.ciclocidade.org.br/noticias/641-7-um-numero-que-tem-que-mudar>.

FERNANDES, Vanessa. Campanha permanente de combate à importunação sexual no transporte público é lei em Curitiba. CBN Curitiba. Disponível em:

< https://cbncuritiba.com/campanha-permanente-de-combate-a-importunacao-sexual-no-transporte-publico-e-lei-em-curitiba/>.

 

Painelistas: Amanda Mendes, Taylor Christinna e Daniela Kuhn
Mediação: Najla Rahall

O nosso primeiro dia de evento, 24/11, contou com a participação das palestrantes Daniela Kuhn – professora de dança e doutora em Tecnologia e Sociedade -, Amanda Mendes – arquiteta e urbanista e assessora parlamentar – e Taylor Christinna – empresária e ativista pelos direitos LGBTQIAP+.

O painel trouxe o debate acerca da relação entre gênero, corpo e cidade e a discussão, sob os recortes de raça e identidade de gênero, dos desafios enfrentados pelas mulheres na experiência cotidiana do uso dos espaços urbanos.

 

Painelistas: Giovanna Simokado e Yasmim Reck
Mediação: Najla Rahall

O segundo dia da terceira edição do EnFrente “Mulheres na cidade: segurança, arte e lazer”, contou com a participação de duas palestrantes: Giovanna Simokado que, arquiteta e urbanista desenvolvedora de pesquisas nas áreas de feminismo, cidade e espaço; Yasmim Breckenfeld Reck, designer cicloativista e coordenadora administrativa da cicloiguaçu.

Neste painel foram debatidos os assuntos de segurança, lazer e mobilidade das mulheres no ambiente urbano.

 

 

Artista: Txai
Atividade: Oficina de Muralismo

Já pensou em ocupar a cidade com arte?
Para encerrar essa terceira edição do EnFrente tivemos, no sábado(27/11), uma oficina presencial de muralismo na UTFPR Sede Centro, no laboratório do PET Políticas Públicas (bloco A, 3o andar).

A atividade foi realizada com a Txai, artista visual curitibana coautora do mural “Saia de bici” da Praça de Bolso da Ciclista e outros projetos pela cidade.

 

 

 

Painel: Gênero, corpo e cidade.
Data: 24/11/2021

Painel: Segurança, lazer e mobilidade.
Data: 25/11/2021