A Alegoria para Glauco: Escândalos e Ocultação na Sociedade dos Adereços

“Em todo o caso eis o que me aparece tal como me aparece; nos últimos limites do mundo inteligível aparece-me a idéia do Bem, que se percebe com dificuldade, mas que não se pode ver sem concluir que ela é a causa de tudo o que há de reto e de belo. No mundo visível, ela gera a luz e o senhor da luz, no mundo inteligível ela própria é a soberana que dispensa a verdade e a inteligência. Acrescento que é preciso vê-la se quer comportar-se com sabedoria, seja na vida privada, seja na vida pública[1].”.

Tão jovem repousa a democracia à luz da conclusão socrática, como uma pretenciosa núvem de chuva  que oculta-se no horizonte. A alegoria da caverna de Sócrates para Glauco consitui legado inestimável para a percepção radical da sociedade brasileira. A retitude conservadora, ou a libertinagem democrata não poupam discursos, vocábulos ou arranjos da oratória para enfatizar o que repousa sobre o legado da democracia: a corrupção, a violência e o preconceito.

Os que vivem sob a égide da livre expressão se auto-condenam, acreditam serem praticantes da justiça pelo exercício de um senso moral evoluído. E por evoluído entenda-se anos-luz da minha pia galáxia. A democracia é pensada sob a tutela do estado corrupto, violento e preconceituoso, o pior dos regimes no século XXI para se viver. Há aqueles que julgam terem encontrado o perfeito algoritmo que adiantará nosso sistema político para um modelo perfeito, sem corruptos ou adoradores da riqueza na política. O que ainda não se sabe é quais pessoas, tão brilhantes, seriam aquelas capazes de governar este modelo. Isto porque aquilo que pelo senso comum se enfatiza como o pior dos defeitos na democracia parece ser um espelho da banalidade humana. Linhas perfeitas do retrato de Antônio irmão de Próspero (Duque de Milão)[2]; um ser  ignorante por cognição, depravado pelos seus acordos e coadjuvante pela forma como se despoja de suas responsabilidades. Na frenesia, sobressalta-se o Maravilhoso Mundo Presente, a atitude facínora me é externa, imprória e na medida que nada tem a ver com  a imagem do “eu”, ainda assim é motivo de longas ponderações.

Quando Sócrates pergunta a Glauco o que fariam os homens da caverna com aquele que foi iluminado, Glauco prontamente responde: “Sem dúvida alguma, eles o matariam”. A violência sob a forma do assassinato colabora para na metáfora expressar a reação humana à pequena que fosse a escuridão diante da claridade. Assim repousa a corrupção na democracia. Como Ícaro e suas asas de cera, ascende aos céus e em pouco tempo retorna para o mundo real. Prontos estão os cegos pelas alegorias da caverna a matar em nome de uma verdade posta, a tudo que contraria, segundo Arendt, a sua doxai[3], desta forma os delatos de corrupção adquirem um contexto fora do mundo banal, parece tudo bem arquitetado, um verdadeiro arranjo do mal produzido pela “Nosferatu Enterprise in Company”, e propagado somente em grandes escalas, parece não haver corruptos em escalas menores. Notadamente Sócrates não trata da corrupção em sua estória, retrata a vida do filósofo mediante a verdade. No entanto, é a expressão que cabe muito àqueles que revelaram na esfera pública seu pior mal, daqueles que expuseram o retrato corrupto que está preso à alma de todos. Quando a corrupção alcança a luz e novamente retorna para o seu nicho, o ser comum, é tida como uma patologia a que são aplicados antibióticos, medidas médicas corretivas.

O mais curioso é a figura do acusador. Um ser insignificante, um “ninguém”, religioso, trabalhador, pai de família, podendo até gabar-se da felicidade no casamento. Para ele tudo se resume e se assemelha a um “assalto”, o despojo em que pela força sente-se a subtração de um bem particular. Vive uma vida externa de todos os males, oculta, muito bem, a violência sob a privatividade da vida familiar e emite longas críticas com textos e oratórias de Hoobs, Adam Smith e Locke, sem ao menos precisar virar uma página de um de seus livros. A virtude intelectual (phronesis) se absorve por osmose. Dotado de uma ‘ética própria’ nas horas de lazer transmite sua radicalidade por meio de julgamentos e sentenças, logo ele próprio é a figura do legislador, do juiz e do executor. No entanto, o mais impressionante não é a fantasia de governo do operário radical, e sim sua expressão de escândalo mediante atos de violência reportados no jornal. O acusador oculta muito bem a violência na vida privada, já que seria uma contradição à excelência exigida na esfera pública.

Em um contexto semelhante em 1961, Hannah Arendt[4] reportou Adolf Eichmann, um homem comum, um trabalhador, que condenado insistia em frisar sua boa educação e sua responsabilidade civil germânica diante das horas socialmente trabalhadas para o regime nazista. Eichmann como o operário brasileiro no século XXI, sofria a mais crítica das contradições: “obedecia ordens”. Sabia a dimensão a curto prazo de seus atos, mas não questionava a ontologia ou a epistemologia do plano maior. Eichmann estava enredado pela alegoria de Sócrates, um homem bom acorrentado à certeza das imagens projetadas nas pedras de uma caverna. Às portas de Ramla, a um homem só couberam os crimes de um regime sob a forma da logística e do extermínio em Treblinka e Auschwitz, por exemplo, como Azazel, um bode expiatório deixado para morrer no deserto a fim de pagar a culpa pelo pecado do povo hebreu. A solução final (Endlösung), como ficou conhecida a soma das imputações a Eichmann, um “ninguém”, resultou na maior das polêmicas sobre a fonte da justiça mediante a corrupção, a violência e o preconceito. Eichmann certamente entrou no tribunal com a sentença de morte assinada e como tal foi julgado para satisfazer o que a televisão norte-americana reportou “(…) Adolf Eichmann is sentenced for his crimes against humanity[5]”. Um qualquer, preso em uma jaula de vidro, não a caricatura do demônio Leviatã.

Do outro lado da história, durante a República de Bismarck, Gerson Bleichröder, banqueiro judeu financista da colonização do Congo Belga e mais tarde da corrupção política alemã na década de 1970, quando questionado sobre as críticas anti-semitas de Stoecker, respondeu: “Não me incomodo com as críticas aos judeus, me incomodo com as críticas feitas aos judeus ricos, pois a mim afetam diretamente”. Na propaganda anti-semita, a aristocracia alemã e os burocratas Austríacos, reféns das transações e matrimônios com famílias financistas judias, viam a fonte salvadora na manipulada média burguesia e no incônscio operariado. Pesava sobre a aristocracia o que mais tarde seria o abandono das classes manipuladas na arena política, restando apenas o ódio instalado. Na citação de Bleichröder, fica claro que a corrupção cria o imaginário do que é externado, o “eu” nada tem a ver com a corrupção, aparenta não afetar a vida cotidiana de um operário, até que a vida pública mesmo não solicitando requer a ‘minha opinião’. O escândalo ao que é impróprio vem sob a forma do incompreensível, o sentimento de imputação daquilo que é ocultado, que não pertence à esfera pública. A mera conclusão de que o “eu” comum e desinteressante possa ser corrupto é um fantasma preso ao caráter.

O que se pretende afirmar é que a corrupção para adquirir seu estado de ser deve ser praticada por indivíduos comuns, indiferentes, desta forma o artigo indefinido lhe cai muito bem. Assim como Eichmann reiterava seu posto trabalhador regular na indústria da morte e compreendia as partes sem precisar ver o todo, Bleichröder, não ocupando um posto ‘comum’ na história lhe era muito semelhante. Ambos não assimilaram a dimensão da corrupção como algo “próprio” e do “eu”, apenas praticavam, o primeiro acusado pelo genocídio semita, o segundo por cooperar. Em uma balança não parece haver pecado em menor ou maior escala. Como o trivial está para a prática do mal em Arendt, o nicho da corrupção é o rotineiro e  o cotidiano, independe de endereço na luta de classes[6].

A democracia, ainda jovem e gozando do pleno direito de errar e se reconstruir, sente horror mediante à corrupção e quaisquer que possam ser suas associações derivadas, filhas como a violência e o preconceito são repudiadas, no entanto, na medida em que critica seu pior medo nele observa um retrato colorido. A violência e o preconceito são na democracia jovem, como o da sociedade brasileira, filhos bastardos na eminência de serem digeridos ao modo de Júpiter. A rejeição ideológica desta perigosa atração é sem dúvida o pior dos males que ameaça reduzir a atividade política  democrática a operadores lógicos básicos.

A fábula da doença perniciosa que toma conta de todos os órgãos é ensinada na menor infância sob o imaginário de que uma fruta doente tende a contaminar toda a colheita. De fato percebe-se uma generalização do que não é “reto e bom”, a total ausência socrática do bem, e para adiquiri-la molesta-se e corrige-se ao máximo o indivíduo no interior da domesticidade, a pressão e a dor são as fórmulas para “lapidar um bom diamante”. O que dizer quando a moral é que nascemos com esta tendência? Não como uma “tábua rasa” em branco pronta para ser escrita? Logo, todos deveriam ser privados da convivência pública, como sugeriu de forma inconsciente Rousseau no Contrato Social, a privação é o método encontrado para corrigir a corrupção e ocultar seu peremptório, a violência e o preconceito.

Dada a democracia brasileira um organismo tão defeituoso quais as motivações que nos levaram a optar por ela? A protegida esfera pública e o regime despótica são dois pontos em um mesmo plano, a menor distância entre eles seria um caminho linear, reto e prudente. Extremos opostos de um mesmo planeta e que convivem em uma harmonia turbulenta, ora pende-se para um extremo, ora pendem-se para o outro, tudo depende de arranjos do Estado-nação e do bedel da aristocracia em manipulação constante da jovem burguesia e do operariado. O déspota aponta no sentido da democracia a corrupção explícita, a violência velada e o proconceito adorado e reprimido. O democrata aponta na sentido do ditador a ocultada corrupção, o uso da violência e o abusivo preconceito. Se os dois partilham das mesmas vergonhas o que no plano ontológico os diferencia? Dado o escândalo da desigualdade no primeiro regime, a ditadura, busca-se consolo no novo regime, a democracia, imperfeita quanto pareça ser, mas o espaço combinado em construção para o livre “combate-comunicação[7]

A corrupção na política marjoritariamente se confunde com a riqueza. A riqueza seria o estopim do maior dos males e da característica mais intrigante aqui estudada. Não nos convém nesta hora discutir a problemática da riqueza e como ela se constitui, no entanto, para a plena ou particular compreensão de nosso objeto, as mazelas da democracia, convém estabelecer como a riqueza atrai mariheiros inexperientes ao longo da história. A riqueza em  Céfalo não é uma virtude para homens comuns, é para os moderados e cautelosos, e aconselha: “jamais enganar alguém ou mentir, ainda que inadvertidamente, nem ser devedor, quer de sacrifícios aos deuses, quer de dinheiro a uma pessoa, e depois falecer sem nada recear.”. “Para isto a riqueza é de grande serventia.[8]

O homem comum enredado pela oposição da cautela e da moderação, na sociedade dos adereços, vê na corrupção o caminho mais curto para a riqueza. A pulga atrás da orelha de Polemarco e a advinda pobreza caso Céfalo deixe sua riqueza para outro. Inexperiente, o homem comum, atinge o ápice da sua conquista então novamente volta à vida cotidiana, perde tudo e todos. Isto atesta a natureza da corrupção, por mais bem planejada que possa parecer é uma sereia ataviada que atraindo néscios marinheiros os afoga, e então, a pervertida aristocracia se gaba, em plena democracia, de ter corrigido a sua característica mais deplorável. Após ter iludido o pobre “ninguém” dele se despoja. Decide-se, então, dada a mídia negativa colocar o banqueiro para governar e restituir a glória da democracia, o contra-Maynard Keyne. Já reportou Sócrates a Polemarco: “se o homem justo é hábil em guardar dinheiro, o será também em furtá-lo.”

Mas nem tudo é riqueza, fatídica conclusão. A corrupção, a violência e o preconceito, são triviais, pequenos atos delatados por um coração como o que batia nas tábuas da casa de Edgar Allan Poe. O “louco” protagonista que conta em primeira pessoa seu homicídio relata: “É impossível saber como a idéia penetrou pela primeira vez no meu cérebro, mas, uma vez concebida, ela me atormentou dia e noite. Objetivo não havia. Paixão não havia. Eu gostava do velho. Ele nunca me fez mal. Ele nunca me insultou. Seu ouro eu não desejava. Acho que era seu olho! É, era isso! Um de seus olhos parecia o de um abutre – um olho azul claro coberto por um véu.[9]”. Da mesma maneira a corrupção e suas prodigiosas filhas não tem estado de ser, mas o mesmo não pode ser dito dos poderes que a sustentam, aqui discutimos simplesmente a questão da sua natureza na democracia.

Por fim, cometido o que com tanto sabor aproveita-se, o horror é um juiz impiedoso que condena o menor dos experientes e confesso : “Não disfarcem mais! Admito o que fiz! levantem as pranchas! — aqui, aqui! — são as batidas do horrendo coração!”

Tão rapidamente voltamos ao início da discussão: onde começa e termina a corrupção? No pequeno ato inconsciente que uma moralidade prática justifica? No homicídio praticado pela menor que fosse a presença da luz?

Certamente, a corrupção começa quando o assunto da conversa é a própria corrupção.

[1] PIETTRE, Bernard. Platão: A República: Livro II. Tradução de Elza Moreira Marcelina. Brasília: Universidade de Brasília, 1985.

[2] SHAKESPEARE, William. A Tempestade. trad. Beatriz Viégas-Faria. Porto Alegre: L&PM, 2002.

[3] ARENDT, Hannah. A dignidade da política. Relume Dumará, 1993, p.108.

[4] ARENDT, Hannah. Eichmann in Jerusalem. Penguin, 1963.

[5] Guilty! Eichmann to Hang, Universal – International News, 1961.

[6] ARENDT, Hannah. As origens do totalitarismo: O anti-semitismo, instrumento de poder: uma análise dialética. 1979.

[7] JASPERS, Karl. Ciência e verdade. O que nos faz pensar, v. 1, p. 104-117, 1989.

[8] PIETTRE, Bernard. Platão: A República: Livro I. Tradução de Elza Moreira Marcelina. Brasília: Universidade de Brasília, 1985.

[9] POE, Edgar Allan. O coração delator. Para gostar de ler–Contos Universais, v. 11, p. 42-47, 2007.