Carta da IX Semana de Políticas Públicas

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Carta de Encerramento da IX Semana de Políticas Públicas: O que falta para o Projeto Urbano?

No tempo da compressão do espaço e da dilatação do tempo – tudo acontece aqui e agora – como pode um projeto de territorialidade urbana subsistir a tais dinâmicas? Esta pergunta enfatiza outra: Se temos método, procedimento e ferramentas, o que falta para a construção de um Projeto do Território Urbano? A pergunta é clara e a resposta engendrada pelo conhecimento e reflexão realizados no âmbito da IX Semana de Políticas Públicas, estabelece sua construção nos campos do lugar e da participação. Logo o que procuramos não é um meio para sua realização e sim “Onde” e com “Quem”. Para Haesbert (2004)1 a territorialidade, além de incorporar uma dimensão estritamente política, diz respeito também às relações econômicas e culturais, pois está intimamente ligada ao modo como as pessoas utilizam a terra, como elas próprias se organizam no espaço e como elas dão significado ao lugar. A inferência do disposto diz respeito, não só à subsistência, produção , circulação de mercadorias, e redução das disparidades na sociedade do consumo, mas diz respeito ao próprio fenômeno de culturalidade sobre a terra em que o indivíduo contribui sinergicamente. Estando o indivíduo, paradoxalmente, sempre à margem do crescimento local econômico e territorial, sua relação com o território do qual se apropriou e/ou descendeu tornou-se subestimada. Portanto, o participativismo popular na construção de um Território Urbano, não deve ser um embuste legal, realizado por um projeto de governo, mas deve assumir a dimensão de um projeto cultural. Um projeto cultural, por sua vez, necessita de um lugar com os elementos, a saber: i) temporalidade: este projeto possui um futuro e, portanto, deve ser estudado à luz do pretérito. O que se pretende não é algo momentâneo, como mais um espasmo no fluxo ininterrupto de informações, mas um espaço para as gerações vindouras, dotado de significado; ii) quanto à política: um meio apolítico, todavia, político quando do Estado depender sua seguridade e a garantia do livre combate/comunicação; iii) e público: um lugar construído por um projeto do povo. O lugar com estes elementos e onde podemos debater é a própria Universidade, um organismo que resiste aos desdobramentos do modelo econômico por sua característica mais enaltecida, também ser um projeto pensado a partir dos operadores culturais da totalidade. O que falta, portanto, ao ‘Projeto Urbano’ é o reconhecimento da formação cultural deste espaço por ‘indivíduos’, carregados de características e interconexões próprias ao longo de uma historicidade. A historicidade por sua vez remete à construção de um centro comercial, por exemplo, em um lugar, ou seja, um meio marcado pela unicidade, pela relação sócio-histórica de uma comunidade, e pelos seus modos de interação com o espaço, que ao ser modificada sua utilidade pública soterra consigo o projeto cultural daquele conjunto de informações, signos e afetos. Isto não impede, no entanto, a acumulação de cultura, pois seria um paradoxo para a ideologia da sociedade no espaço-tempo. Mas permite a construção da cultura por quem opera a cultura, o próprio povo. Se falta um lugar com todas as premissas apresentadas, este lugar é a Universidade, marcada pela contradição de ideias, tempo próprio, por ser um espaço idealizado como público e precedido pela cultura.

Caminhamos para os 10 anos da Universidade Tecnológica Federal do Paraná e para a X edição da Semana de Políticas Públicas. De fato, neste projeto de Universidade e nesta ação de Debate, o que procuramos é consolidar um meio qualificado de discussão e realização da práxis educacional. Neste espírito a Semana se estenderá por todo o ano nas ações e estudos para a construção de seu projeto cultural, e sempre sua realização será operada pela ‘ousadia de agir publicamente’. Como nos disse Karl Jaspers, em 1960, em comemoração aos 500 anos da Universidade da Basiléia: “Devemos ousar agir publicamente. Se desde o momento em que todos os homens aprenderam a ler e a escrever, a democracia é o único caminho da liberdade, da verdade e da paz, seu êxito [da universidade] está ligado a modos do pensamento e a símbolos que são acessíveis a todos”2. Muito obrigado e até a próxima jornada!

1 HAESBAERT, Rogério. O mito da desterritorialização. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2004.

2 JASPERS, Karl. Ciência e verdade. O que nos faz pensar, v. 1, p. 104-117, 1989.

 

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