Palestra online “EaD na educação básica: desafios para as escolas da cidade e do campo na pandemia”

O evento interPET e interinstitucional organizado pelo PET – Políticas Públicas, da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), e pelo PET – Comunidades do Campo, da Universidade Federal do Paraná (UFPR) – Setor Litoral, contou com a participação da Prof. Dra. Mônica Ribeiro, da UFPR, e da Prof. Maria Isabel Farias, do curso de Licenciatura em Educação do Campo – Ciências da Natureza, da UFPR Litoral, e foi mediado pelo tutor do PET/PP.

 

Após breve introdução do mediador, com lembrete da etiqueta de eventos virtuais e apresentação das palestrantes, a Prof. Dra. Mônica Ribeiro comentou a situação inesperada vivenciada, a pandemia de covid-19 – sem dúvidas, um dos marcos do século XXI – que implicou em repensar políticas públicas e o papel do Estado, o qual em sua opinião, deveria ser maior. A necessidade de distanciamento/isolamento social se tornou um obstáculo imenso para os sistemas escolares, visto que não havia precedente e, portanto, não havia preparo. 

Surgiu então o debate de como promover a educação no contexto do distanciamento, e da resposta de governantes e do setor privado, que foi a adoção das chamadas Atividades Educacionais Não-Presenciais, ou Atividades Didáticas Não-Presenciais. A professora esclareceu que essas atividades caracterizam ensino presencial remoto, e não se encaixam na modalidade de Educação à Distância, pois esta possui requisitos, materiais, linguagem e metodologia próprias, além de público-alvo (jovens e adultos), e tempos e espaços definidos.

Segundo a palestrante, a situação levantou inúmeros questionamentos, como o que é ser criança, o que é ser professor, e o que a sociedade de fato pensa sobre o ensino remoto. No caso das crianças, estas sofreram uma mudança brusca na interação com a escola, pois o papel de professor foi assumido pelos pais, não havendo distinção entre o ambiente da escola e da casa, e ocorrendo ruptura no processo de alfabetização e aprendizagem, o que pode prejudicar suas trajetórias na escola, pois ser aluno é algo que se constrói ao longo do tempo.

Já os professores estão sob enorme pressão e sofrendo desgaste incomparável devido à improvisação de aulas remotas e adaptação de materiais, e à falta de delimitação da vida pessoal e profissional que a crise pandêmica impôs em suas rotinas, exigindo a disponibilidade ininterrupta para alunos e pais, inclusive noites e fins de semana, além da interferência das famílias durante as aulas, pois em muitos casos não há distinção entre ambiente de estudo e familiar nas residências das crianças. 

Há também muitos obstáculos para alunos de todos os níveis de ensino no método remoto, como dificuldade de acesso, sobrecarga, falta de merenda e de lugar próprio para estudo em suas casas, o que se torna ainda mais problemático quando há crianças de idades diferentes na família. Surgiram problemas técnicos nas plataformas de ensino disponibilizadas, o que aumentou a frustração de alunos já estressados. A professora citou como exemplo o que aconteceu em Wuhan, onde alunos chineses tentaram derrubar o aplicativo pelo qual estavam estudando em protesto ao ensino remoto.

Em termos gerais, a sociedade não se mostrou favorável às atividades não-presenciais. Além de escolas, empresas também adotaram trabalho e eventos remotos, e o que se evidenciou é que esta modalidade causa grande desgaste físico e emocional, estressando e esgotando psicologicamente os envolvidos. Há também a exclusão das crianças e jovens sem condições financeiras de se adaptar ao ensino não-presencial, pois segundo a professora apenas 10% dos alunos estão acompanhando a educação remota no país. 

Discutiu-se também o que é educação e qual é o papel da escola. Para Vygotsky, a educação se dá pela interação e mediação entre indivíduos, e o professor permite acesso à cultura construída pela sociedade. Na Educação Básica, a interação possui papel ainda mais relevante, havendo maior dependência do professor na alfabetização, e o ensino remoto compromete as relações emocionais essenciais para o incentivo ao aprendizado.

Na adaptação do ensino presencial ao não-presencial, o papel da escola foi limitado à transmissão de conteúdos e sucessão de dias letivos, ignorando-se a importância da interação, e da formação de relações e da identidade do aluno. Governantes têm focado na compensação de carga horária para complementar os dias letivos exigidos por lei, mesmo quando a maioria dos alunos não têm condições de acessar o ensino remoto. Para a professora, esta é uma concepção restrita de escola, que prejudica um enorme contingente de estudantes e converte um espaço de formação em simples transmissão de aulas e obtenção de notas, e por isso, é essencial que se acompanhe as decisões de municípios e estados em relação à validação dos dias letivos. 

A Prof. Maria Isabel Farias comentou que mesmo em uma crise, é importante continuar debatendo a educação, criando espaços e recriando possibilidades de discussão. A professora então explicou brevemente a história da Educação do Campo, Água e Florestas no país. A modalidade remete ao final da década de 1990, quando se elaborou a educação do campo e no campo, pois antes disso havia apenas escolas urbanas e as políticas educacionais do campo se limitavam ao transporte até a cidade. 

A Educação do Campo se fundamentou em princípios filosóficos e pedagógicos, mantendo o vínculo com a realidade camponesa, pois a escola é parte vital da comunidade, e respeitando tempos/espaços do meio rural, tanto que a modalidade possui flexibilidade quanto à carga horária e aos dias letivos, além de focar em valores e conhecimentos do campo e em integração com a comunidade, de forma que as escolas sejam materialidade do meio em que estão inseridas.

Com o isolamento social, as redes municipais e estaduais passaram a oferecer o ensino remoto como opção ao presencial para que a educação de crianças e jovens não seja interrompida, mas no campo essa alternativa se provou inviável. Alunos e professores não têm condições de acessar as plataformas disponibilizadas, as quais não foram elaboradas para se adaptar à dinâmica camponesa, que é muito diferente da urbana em relação aos conteúdos e horários de estudo, o que causa ainda mais desgaste nos envolvidos. 

Professores e pais têm improvisado esquemas para levar as atividades aos alunos, utilizando whatsapp se possível e/ou buscando e entregando impressões, mas quando se trata da alfabetização da criança, o problema se torna ainda maior, pois não pode ser concretizada de forma remota. Segundo a palestrante, professores relatam que as devolutivas das atividades, muitas vezes incompletas ou em branco, mostram que o ensino remoto não está obtendo sucesso em seu objetivo – substituir o ensino presencial.  

A sobrecarga de professores e alunos camponeses é maior devido às responsabilidades que a vida no campo implica, limitando o tempo reservado para o estudo, o que sobrecarrega a rotina e inviabiliza o ensino remoto no meio rural. Além disso, essa modalidade exige que pais assumam o papel de professores, mas muitas vezes a família não tem conhecimento e/ou tempo para auxiliar as crianças na resolução de atividades. 

Outro obstáculo destacado foi o apostilamento da educação – que ocorre há muito tempo mas foi intensificado na quarentena – pois a apostila não substitui aula, muito menos no campo, onde um instrumento padronizado não tem lugar. A palestrante também citou o Colégio Estadual Quilombola Diogo Ramos, na comunidade João Surá em Adrianópolis (PR), que não aderiu ao ensino remoto padronizado disponibilizado pelo governo estadual, e organizou projetos, estudos e leituras nos moldes da Educação do Campo.

A professora questionou se essa é a escola que queremos, e como se pode pensar em ensino remoto no campo se não há condições acesso às plataformas. Para ela, o uso da tecnologia como complemento pode ser um ponto positivo se o acesso for disponibilizado, mas sem negligenciar o papel vital da escola na comunidade, focando no aprendizado coletivo, na interação e no respeito à realidade camponesa. Também disse que se há algo positivo a se destacar na situação vivenciada, é a valorização da escola por parte de pais, alunos e da sociedade em geral. Há finalmente consenso que a escola e os professores são essenciais para a formação humana, e que a tecnologia não consegue substituí-los, assim como o acesso à esta não é democrático no país. 

Comentou-se que, de forma contraditória, a modalidade de Ensino à Distância no Ensino Superior faz parte da vida no campo, sendo a principal formação de professores no meio rural e um mercado crescente no interior do país. Destacou-se também a Licenciatura em Educação do Campo, uma importante política para a formação de docentes que entendam a realidade camponesa.

No período de perguntas do público, a Prof. Dra Liliani Tiepolo, tutora do PET – Comunidades do Campo, ressaltou a enorme exclusão de alunos sem acesso ao ensino remoto, principalmente no campo, e a importância da escola como ambiente de sociabilização de crianças, as quais muitas vezes rejeitam o uso de tecnologia e a substituição de seus professores pelos pais. Questionou, então, se há a possibilidade de a EAD crescer como máquina educacional, e se haverá financiamento maciço no acesso para todos, visto que o maior interesse em EAD é privado.

Para a Prof. Mônica, essa possibilidade não corresponde à realidade brasileira, pois a EAD encontraria obstáculos imensos em periferias e no campo, e pelo fato de que a maior parte das escolas brasileiras pertence à rede pública, sendo esta responsável por 90% da Educação Básica no país. Para ela, há espaço para a EAD em todos os níveis de ensino, mas é improvável que haverá generalização da modalidade na educação pública, ainda mais no nível básico.

A palestrante citou o avanço da graduação no modo EAD em municípios menores, com sua concepção própria de ensino superior, mas não acredita que a modalidade avance nas universidades públicas. Comentou também os efeitos da situação vivenciada nas Instituições de Ensino Superior (IES), e a escolha de algumas destas pelo ensino remoto. Para a professora, as IES não devem ser contra a EAD ou as atividades não-presenciais – desde que sua adoção não seja obrigatória, pois isso criaria exclusão daqueles sem acesso à tecnologia – porque acredita que a graduação não deveria parar na quarentena, mas sim continuar trabalhando no que é possível sem causar problemas de saúde ou exclusão. Nesse sentido, as coordenações dos cursos devem manter contato com seus alunos para que haja algum grau de interação e que não ocorra a impressão de abandono. 

Para a Prof. Maria Isabel, a EAD não é viável no campo pela falta de acesso à internet e de equipamentos, e pelas características e requisitos próprios da modalidade, os quais o ensino remoto padronizado adotado na quarentena não respeita. 

Nas considerações finais, a Prof. Dra. Mônica Ribeiro prestou seus agradecimentos e comentou a previsão de sua a instituição, a UFPR, de que o ensino presencial não voltará neste ano, devido ao agravamento da crise sanitária em Curitiba. Ressaltou a necessidade do prevalecimento do espírito de coletividade da sociedade, e da esperança que a situação será superada, assim como a adoção do distanciamento físico, não social.

Por fim, a Prof. Maria Isabel Farias agradeceu a todos e pela oportunidade, e ressaltou a importância de fortalecimento das políticas de saúde, como o SUS, e de educação, como as escolas públicas e seus professores, em particular em momentos de crise como o vivenciado, e de continuar refletindo sobre o papel da escola e da educação.

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