Palestra online “Saúde mental: estratégias para autoanálise e bem-estar no distanciamento social”

Organizada pelo PET/PP, a atividade contou com a participação da Prof. Dra. Maria Sara de Lima Dias, pós-doutora em psicologia pela UAB (Espanha), doutora em psicologia pela UFSC, mestre em psicologia da infância e adolescência pela UFPR e professora na UTFPR, e foi mediada pelo tutor do grupo.

A Prof. Dra. Maria Sara discursou sobre a saúde mental na quarentena decorrente da pandemia de covid-19, focando no autodiagnóstico e estratégias para enfrentamento. Em razão da situação atípica vivenciada, é preciso refletir sobre quais dimensões da vida foram afetadas – física, psicológica, social, interacional – e quais recursos se tem para enfrentá-la.
Como seres sociais, todos possuem cotidianos e padrões de comportamento, os quais sofreram ruptura na crise sanitária, causando diversas reações emocionais. Entre as mais comuns está o medo, seja este da doença, dos sintomas, da morte, do isolamento das redes de relações, de sair de casa e ser contaminado, ou ainda de transmitir para pessoas próximas. Há também outras reações, como o sentimento de impotência, de não poder fazer algo para melhorar a situação, o que gera a sensação de vulnerabilidade, além da irritação, muitas vezes causada pela necessidade imposta pelos novos protocolos sanitários de comportamentos desconhecidos pela maioria das pessoas, como o uso de máscaras e o distanciamento social.

A pandemia evidenciou o conflito entre a racionalidade e as emoções, ampliando as últimas de forma repentina, o que deixou muitas pessoas desnorteadas. Segundo a professora, nesse primeiro momento, o mais importante é identificar o que se está sentindo, mas reconhecendo que todas as emoções têm motivos e são parte da natureza humana. É comum experienciar sensações de desamparo, solidão e angústia, ou mesmo tristeza, as quais podem se manifestar por meio de falta de ar ou choro, respectivamente, mas é essencial tentar diagnosticar quando essas emoções se tornam excessivas e até patológicas.

Junto a esse reconhecimento de qual é o estado emocional em que se encontra, é preciso identificar mudanças em comportamentos causadas por reações emocionais à pandemia. Padrões alimentares e sono são os mais comumente afetados, seja por um extremo – anorexia e insônia – ou outro – sobrepeso e dormir demais. A insônia é especialmente perigosa, pois a falta de sono reparador pode levar ao aumento de ansiedade e/ou agressividade, e até depressão. Em relação ao medo, a professora ressaltou que é uma ferramenta de sobrevivência que foi essencial para a evolução do ser humano, e senti-lo no momento não é insensato, pois a covid-10 é uma doença perigosa e desconhecida. A quarentena tende a amplificar esse temor, causando tensão constante e criando um estado de alerta no corpo que pode aumentar níveis de stress e ainda deprimir.

Outro fator agravante do isolamento social é o aumento de conflitos interpessoais causados pelo convívio forçado sem interrupções, ainda mais quando há crianças e/ou pessoas com necessidades especiais na residência. Houve aumento de violência doméstica e infantil na quarentena, e essa agressividade também se manifestou em atos contra profissionais de saúde e segurança pública. Uma das causas do aumento de comportamentos agressivos é a restrição da mobilidade decorrente do isolamento, pois além da locomoção fazer parte do cotidiano de todos, o exercício físico é saudável e libera endorfinas no corpo, diminuindo níveis de stress. Comentou-se também que a agressividade implica em culpabilização, que pode ser direcionada aos outros ou a si mesmo, no último causando diminuição de auto-estima.

A professora também ressaltou a importância de refletir sobre as alterações nos aspectos cognitivos durante a quarentena. Pensamentos recorrentes, como obsessão com a doença; desorientação temporo-espacial, ou seja, não ter certeza de onde está e qual é o dia da semana, e que ocorre pela perda de referenciais tradicionais; além da maior concentração exigida por aulas/trabalho online – todos esses fatores afetam o estado emocional, e portanto, deve-se analisar quando estão se tornando prejudiciais e excessivos.
Para o enfrentamento da quarentena, precisa-se primeiro reconhecer que apesar de ser racional, o ser humano é também ser emocional. Entre as estratégias sugeridas, encontram-se procurar manter a estabilidade emocional identificando sinais de alerta e retomando métodos que já se provaram eficazes em outro momento, além de administrar o tempo, intercalando trabalho/estudo – que se virtual, não deve durar mais que 2 horas – com exercício físico, meditação e/ou exercícios de respiração, ou então conversas com familiares e amigos, leituras ou mesmo cultivar um novo hobby, algo que se desejava realizar mas nunca se tinha tempo suficiente. É essencial criar uma rotina mais saudável, abandonando maus hábitos e mantendo em dia as relações afetivas, e se possível, ajudar alguém de alguma forma, conhecido ou não, para manter o sentimento de comunidade e trazer conforto a si mesmo e aos outros, e promover solidariedade.

De acordo com a professora, cada um tem potencialidades diferentes, e essa subjetividade implica em diferentes reações à pandemia – pessoas mais introvertidas têm em teoria menor dificuldade em se adaptar ao isolamento, e aquelas com espiritualidade mais desenvolvida podem se sentir mais consoladas, por exemplo. Além disso, a quarentena causou também grandes rupturas na vida de muitas pessoas, como perda de emprego e mortes de familiares e amigos. O rompimento de laços afetivos – luto – se dá de muitas maneiras, podendo culminar em suicídio. Destacou-se então a relevância da rede de ajuda, em especial da psicologia, que trabalha de maneira pró-ativa ou preventiva, ao contrário da psiquiatria, que atua de modo reativo por meio de intervenções medicamentosas.
Para a palestrante, o papel social do psicólogo é diagnosticar emoções e comportamentos, e a partir disso desenvolver estratégias de sobrevivência para prevenção na saúde mental, e portanto, possui ferramentas mais adequadas para enfrentar esta crise do que o psiquiatra. Entre essas, ressaltou a escuta ativa, na qual procura-se mostrar interesse verdadeiro pelo outro e pode ser utilizada por todos dispostos a ajudar, mesmo sem formação técnica.

Destacou-se novamente que a gestão do tempo é essencial para manter o equilíbrio e a sensação de bem-estar, assim como observar o próprio comportamento é a melhor ferramenta de que se dispõe no momento, em particular se houver exacerbação de atitudes ou transtornos, como atos compulsivos na alimentação ou na limpeza. Se sofrer alguma crise, tentar identificar a sua natureza, os motivos por trás dela e qual foi o estopim, e principalmente se foi isolada ou é recorrente, pois reações emocionais podem fazer parte do processo de adaptação à nova realidade, mas se ocorrem com frequência e apresentam evolução na gravidade podem ser sinal de patologia. Por isso, deve-se praticar a autoanálise do que é o novo normal para cada um, respeitando subjetividades e sempre procurando ajuda profissional quando necessária.

Ressaltou-se também a importância de procurar se informar somente por fontes idôneas, pois a crise já implicou em distanciamento e isolamento social – medidas que comprometem a saúde mental – e o fluxo constante de notícias falsas pode afetar o comportamento negativamente, apesar de que a atenção às informações confiáveis também pode ser prejudicial quando se torna excessiva.
Em relação à rede de proteção em Curitiba, a professora indicou as centrais 136, do Disque Saúde, um canal de comunicação com o Sistema Único de Saúde (SUS), e 188, o Centro de Valorização à Vida, que realiza apoio emocional e atua na prevenção do suicídio.

Nas perguntas do público, houve dúvidas sobre como evitar conflitos familiares, e a professora indicou a escuta ativa como ferramenta, para que se possa identificar motivos por trás da agressividade e tentar reequilibrar o ambiente familiar, além de atividades compartilhadas para desenvolver a convivência e resiliência e alterar o padrão do humor no momento.

Comentou-se também sobre a dificuldade de explicar a pandemia para parentes mais idosos. A palestrante reconheceu que essa situação requer muita paciência, pois a raiz do problema é um conflito intergeracional, e por ter maior vivência, o familiar mais idoso tem padrões de comportamento cristalizados; portanto, cabe ao jovem ser mais flexível, também por ter maior acesso ao conhecimento. Deve-se utilizar metáforas e comparações com elementos concretos próximos da realidade, e tentar se comunicar usando a linguagem da geração e nível de conhecimento do idoso, sendo o mais criativo possível e fazendo tantas tentativas quanto forem necessárias para explicar a gravidade do momento. Nesse sentido, a professora discutiu a necessidade de aproximar a universidade da comunidade externa, pois muitas vezes o conhecimento científico não sai do meio acadêmico e em momentos como o vivenciado se vê a necessidade dessa interação.

A Prof. Dra. Aurea Cristina Magalhães Niada, coordenadora do curso de Administração e professora da UTFPR, participou da live e pediu sugestões da Prof. Dra. Maria Sara para auxiliar os alunos, principalmente calouros, na prevenção da saúde mental no âmbito da universidade. A palestrante disse que há a necessidade de cultivar o autoconhecimento, pois a cultura predominante é de primazia da razão contra a emoção, e é essencial que alunos percebam alterações no estado emocional e desenvolvam estratégias para enfrentá-las. Deve-se também estimular alunos a reconhecerem suas potencialidades em ajudar a si mesmo e outros, pois apenas obter um diploma não é suficiente para motivação; é importante que eles tenham um projeto de vida, um propósito maior para se manterem equilibrados.

A Prof. Dra. Maria Sara conclui a live com uma reflexão de Bruno Latour:

“Ao abrir a caixa-preta dos fatos científicos, não ignorávamos que abríamos a caixa de Pandora. Era impossível evitá-lo”, escreve. “Ela esteve hermeticamente fechada enquanto permaneceu na terra de ninguém das duas culturas, oculta no meio das couves e nabos, placidamente ignorada pelos humanistas, que tentam combater os perigos da objetificação, e pelos epistemólogos, que procuram anular os males trazidos pela massa rebelde.” Agora, diz o autor, a caixa foi aberta e espalhou “pragas e maldições, pecados e doenças”. Diante desse contexto, ele propõe apenas um caminho: “mergulhar na caixa quase vazia para resgatar aquilo que, segundo a lenda venerável, ficou lá no fundo – sim, a esperança. A profundidade é demasiada para mim; não gostaria de me ajudar na tarefa? Não me daria uma mãozinha?”, convida.

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