#COVID-19 | “Covid-19 e saúde mental: subproduto de uma crise pandêmica”

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Covid-19 e saúde mental: subproduto de uma crise pandêmica

Samara Melissa Gomes Fagundes¹, Catarina Tecchio Godinho¹, Isabele Galdino Valter¹, Letícia Camargo de Sá Silva¹Thaise Aline Muraro¹, Antonio Gonçalves de Oliveira²

1 – Bolsistas do Programa de Educação Tutorial em Políticas Públicas (PET-PP)/UTFPR.
2 – Tutor do Programa de Educação Tutorial em Políticas Públicas (PET/PP)/UTFPR

A pandemia do novo coronavírus e a necessidade de combatê-la está apresentando vários desafios nas esferas políticas, econômicas e sociais. Para conter a epidemia é necessário adotar ações coletivas de isolamento social e comportamento de prevenção. Tais medidas sociais visam impedir a sobrecarga e estrangulamento dos sistemas e serviços de saúde, e, consequentemente, reduzir a letalidade. (REGO e BOGGIO, 2020). Porém, esta demanda está gerando uma mudança radical de hábitos e costumes que acabam afetando também a saúde mental das pessoas, podendo gerar e/ou agravar doenças psicológicas (SANTOS, 2020).

PERDA DA VIDA ANTERIOR

O isolamento social consiste em, basicamente, as pessoas se afastarem das interações e atividades sociais que não são tão necessárias para garantir o funcionamento da sociedade. Ou seja, nem todos podem se isolar, mas aqueles que podem, devem fazê-lo de maneira voluntária. Porém, o isolamento afasta as pessoas de suas atividades normais e exige uma tentativa de adaptação a uma nova rotina, lembrando que o homem em sentido lato sensu é naturalmente um ser social, e como tal, na sua essência não nasceu para viver isolado, daí a profundidade socio-filosófica da célebre frase aristotélica:  “o homem solitário é uma besta ou um Deus”. De fato, ninguém quer ser uma besta e no mais, mesmo que eventualmente se queira ou alguém em pedantismo possa se achar; ninguém, respeitados entendimentos diversos, pode ser um Deus. 

Logo, a atual realidade de isolamento compulsório pela Covid-19 está gerando sentimentos de amarguras como o luto. De acordo com entrevista feita com  David Kessler, autor e especialista em estudos sobre luto, as pessoas estão sentindo vários tipos de lutos diferentes porque elas têm a consciência de que o mundo mudou e provavelmente as coisas não serão mais as mesmas, assim como as rotinas que antes as pertenciam. Haverá, após tudo isso, o “novo normal”, uma nova realidade de interação social após o término do que acaba sendo um tipo de luto coletivo, resultado da perda de um aspecto de vida, que acabou sendo gerado pelo atual cenário de pandemia  (SARRIA, 2020).

Créditos: Anthony Tran | @anthonytran | unplash.com

LUTO ANTECIPADO E O FUTURO EM ABERTO

Ainda para Kessler, o luto antecipado é basicamente um sentimento que o indivíduo sente quando o futuro é incerto e normalmente ele se centra na morte. Ou seja, está-se diante de uma ameaça à saúde global e os pensamentos giram em torno da perda, seja da própria vida ou de algum familiar. Logo, o indivíduo começa a imaginar vários cenários futuros, como modo de se preparar para o pior e, por fim, este sentimento se apresenta de maneira confusa para cada um processar, pois o senso de segurança está sendo ameaçado e não se tem muito controle sobre isso. Por isso, decorrentes deste sentimento, começa a se criar um estado ansioso que prejudica àquele que sente e àqueles que estão em sua volta. O especialista diz que para não deixar esse sentimento tomar conta é importante criar um equilíbrio de situações boas e ruins nos cenários imaginados, se concentrar no presente, abrir mão do incontrolável e ter compaixão com aqueles que nos cercam e que estão lidando de maneiras diferentes com o mesmo tipo de luto. (SARRIA, 2020) 

Outro aspecto que permeia tudo isso é a falta de certeza no futuro, pois não se sabe o tempo de duração da pandemia trazida pelo do novo coronavírus e, portanto, nem quando tudo irá terminar. O psicólogo Dr. Willian Mac-Cormick Maron, professor na Universidade Tuiuti do Paraná, acredita que nada voltará ao “normal” de antes e também não será como está sendo agora, mas que vai se criar uma terceira realidade que ainda não se sabe como será. Logo, este aspecto contribui para o aumento do consumo desenfreado de informações que acaba piorando os quadros de ansiedade. Para o psicólogo, o ansioso busca a informação para apaziguar o estado de tensão proporcionado pela incerteza. Porém, a informação gera mais estado de tensão, justamente porque na maioria das vezes elas não trazem um cenário muito favorável. Desse modo, o ansioso busca mais informações, num ciclo interminável que faz ele ficar preso no tempo e no espaço. 

INTERAÇÕES: OS PERTOS LONGES E OS LONGES PERTOS

A convivência dentro de casa pode não ser muito fácil. O confinamento acaba intensificando um contato maior entre os familiares e segundo o psicólogo Dr. Willian Mac-Cormick Maron, as pessoas estão começando a conhecer, realmente, os lados bom e ruim das pessoas com as quais conviviam e que anteriormente não tinham tanta presença física em muitas horas do dia. Logo, pequenas atividades rotineiras acabam virando conflitos familiares e a convivência vai se desgastando aos poucos e gerando distanciamento mental, mesmo estando no mesmo ambiente físico. É o perto longe, distante. 

Por outro lado, acontece um fenômeno inverso com aqueles que se encontram fisicamente distantes. A necessidade do longe perto! Nesses casos, a falta do outro é acentuada e os sentimentos de tédio e solidão são intensificados. As reclamações das pessoas que se encontram nessa situação é que elas sentem falta da convivência, dos programas compartilhados, do toque físico e muitas outras interações. Porém, as ferramentas online têm ajudado bastante nesse quesito, como as ligações telefônicas e chamadas de vídeo (BOMFIM, 2020).

“GOURMETIZAÇÃO” DA QUARENTENA E O NEGACIONISMO

Com a quarentena é possível perceber claramente em como se apresenta a desigualdade social. Pode-se perceber que existem dois tipos de quarentena: a quarentena dos mais abastados e a dos pobres. Nas redes sociais é comum se observar aqueles de classes mais elevadas com um melhor conforto e pregando um discurso da positividade e da produção. De acordo com o psicólogo Dr. Willian Mac-Cormick Maron, isso nasce de um aspecto negacionista que o indivíduo usa para aliviar a sua tensão. 

Como consequência do referenciado negacionismo, surge um aspecto de auto cobrança de produzir e “ficar bem”, e muitas vezes isso pode ser prejudicial àqueles que estão afetados psicologicamente e não tem tal condição como os mais abastados, colocando-se, assim até mesmo numa condição de “culpado” pela sua “incapacidade” em função da  desigualdade de acesso a oportunidades. Logo, isso acaba sendo um fator que pode contribuir com os casos de depressão e ansiedade. 

QUESTIONAMENTOS DA IDENTIDADE – SER E FAZER

Por causa da quarentena, as pessoas tiveram de abdicar de suas atividades anteriores, e isso lhes gerou um grande conflito interno devido a tendência de “materialização” do ser ao fazer. Pois entende-se, em pressuposto, que o que se faz define quem é, e “ser” se torna um conjunto de atividades que se executam no dia a dia. Para Carl Jung, psiquiatra e psicoterapeuta suíço,  tal aspecto é a personalidade que se apresenta à sociedade como real, porém ela é inconstante e diferente da verdadeira. (POLAKIEWICZ, 2020).

O psicólogo Dr. Willian Mac-Cormick Macron diz que isso reflete uma tendência de “redução do ser ao fazer” e isso, em tempos que se está impossibilitado de fazer nossas atividades normais, acaba gerando uma crise de identidade no indivíduo. 

Por fim, existe um impacto na saúde mental desse indivíduo que muitas vezes não tem noção de que ocorre com ele, porém, anteriormente, a sua energia que era direcionada aos afazeres e a rotina, se transforma agora em uma vivência reduzida ao isolamento/distanciamento  (POLAKIEWICZ, 2020).

A SÁUDE MENTAL

De acordo com um estudo da Universidade do Estado do Rio (UERJ) publicado pela revista científica The Lancet, nessa conturbada fase de afastamento/isolamento em face da Covid-19, os casos de depressão aumentaram em torno de 90% enquanto os de ansiedade mais que dobraram (JANSEN, 2020). O estudo também revelou que além da solidão e o tédio, sentimentos como exaustão, desapego de outras pessoas, ansiedade, irritabilidade, insônia, falta de concentração e indecisão também foram apresentados como sintomas que aumentaram durante a quarentena (BOMFIM, 2020).

O estudo ainda revelou que as mulheres são as mais afetadas, principalmente aquelas que ainda continuaram a trabalhar, visto que há acúmulo de tarefas entre filhos, tarefas domésticas e as do trabalho em si. De acordo com Alberto Filgueras, coordenador da referida pesquisa, os fatores sociais também contribuem para o aumento do quadro, pois os trabalhadores de serviços essenciais se encontram mais expostos ao vírus, e por isso, se sentem mais ansiosos e estressados, quando comparados aos que estão cumprindo a quarentena de casa. Além disso, pessoas com idade avançada ou que moram com idosos também sentem estresse mais elevado, visto que a maior taxa de letalidade está entre aqueles com faixa etária mais elevada (JANSEN, 2020). 

Para a psicóloga Christiane Hegedus Karam, do Hospital Israelita Albert Einstein, indivíduos com condições psíquicas mais frágeis são facilmente afetados durante este período. Além disso, pessoas de baixa renda também são bastante afetadas porque elas não têm a possibilidade de uma quarentena confortável economicamente, e acabam se preocupando com a falta de renda e o desemprego, sendo que, merece registro, muitas vezes as pessoas permanecem em ambientes pequenos e vivem com a falta de acesso às tecnologias que, por suas vezes, podem ajudar a amenizar muitos sentimentos (BOMFIM, 2020).

Por fim, é possível perceber que a ansiedade e a depressão são fatores que acabam atrapalhando o bom andamento da resolução da pandemia numa esfera mais micro, fazendo, muitas das vezes, com que as pessoas deixem o isolamento aumentando-se o risco e a velocidade de contágio. Não obstante, é comum os estudos serem concentrados no causador dos patógenos que causam a pandemia, justamente porque há uma urgência para resolução do problema. As implicações psicológicas e psiquiátricas acabam ficando secundárias ao fenômeno novo coronavírus, fazendo com que os estudos científicos sobre tais temas fiquem até mesmo negligenciados. (ORNELL ET. AL., 2020). 

Finalmente , ainda no matiz da saúde mental em tempo de Covid-19, de acordo com os dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) se espera um crescimento médio de: 8,5% de quadros de estresse; 7,9% de quadros de ansiedade; e 3,9% de quadros de depressão (JANSEN, 2020). Assim, consequentemente às capilaridades trazidas pela Covid-19, não há como o Estado e Órgãos executores de políticas públicas da área da saúde e da assistência social, mesmo se reconhecendo a necessária prevalência dos esforços e foco no combate à pandemia, não há como relativizar e até mesmo negligenciar outras doenças em franco movimento, como exemplo: a dengue, o sarampo, a febre amarela, as mortes por consequência do Câncer, e, não menos importante, as doenças que afetam a saúde mental, tratadas aqui como foco deste trabalho opinativo. 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BOMFIM, Cristiane. Coronavírus: redes sociais e ver sua casa como proteção amenizam solidão. VivaBem, UOL. 31 de março de 2020. Disponível em <https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/redacao/2020/03/31/coronavirus-redes-sociais-e-ver-sua-casa-como-protecao-amenizam-solidao.htm> Acesso em 08 de maio de 2020.

DIAS, Marcelo. Quarenteners: como gourmetizar uma pandemia. Revista Bula. 2020. Disponível em < https://www.revistabula.com/30492-quarenteners-como-gourmetizar-uma-pandemia/> Acesso em 12 de maio de 2020. 

JANSEN, Roberta. Covid faz casos de estresse e ansiedade mais que sobrarem no Brasil. O Estado de São Paulo. 07 de maio de 2020. Disponível em <https://saude.estadao.com.br/noticias/geral,covid-faz-casos-de-estresse-e-ansiedade-mais-que-dobraremno-brasil,70003294817> Acesso em 08 de maio de 2020. 

MARON, Willian Mac-Cormick. Palestra Isolamento social e a crise dos afetos segundo a psicanálise. Nuevo Blog Brasil. 06 de maio de 2020. Disponível em <https://nuevoblog.com/2020/05/06/isolamento-social-e-a-crise-dos-afetos-segundo-a-psicanalise/?fbclid=IwAR3nwjhuVw9YFMRlo26Xd8RR_oT-I_EYAeNB4H2KIzOZgdY8Nce-tq7Jw2U> Acesso em 10 de maio de 2020. 

ORNELL, Felipe, Schuch, Jaqueline B., SORDI, Anne O., KESSLER, Felix Henrique Paim. “Medo pandêmico” e COVID-19: ônus e estratégias para a saúde mental. Revista Brasileira de Psiquiatria. 19 de março de 2020. Disponível em < http://www.bjp.org.br/details/943/en-US#B02> Acesso em 11 de maio de 2020. 

POLAKIEWICZ, Rafael. Coronavírus: isolamento social em tempos de pandemia. 24 de abril de 2020. Portal Pebmed. Disponível em < https://pebmed.com.br/coronavirus-isolamento-social-em-tempos-de-pandemia/> Acesso em 12 de maio de 2020.

REGO, Gabriel Gaudêncio. BOGGIO, Paulo Sérgio. Percepção de risco rege reação das pessoas à COVID-19. Revista Questão de Ciência. 24 de abril de 2020. Disponivel em <https://www.revistaquestaodeciencia.com.br/questao-de-fato/2020/04/24/percepcao-de-risco-rege-reacao-das-pessoas-covid-19> Acesso em 10 de maio de 2020.

SANTOS, Roseane. Quarentena e saúde mental: depressão, TDAH e outros quadros pedem cuidados. VivaBem, UOL. 02 de abril de 2020. Disponível em <https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/redacao/2020/04/02/quarentena-e-saude-mental-depressao-tdah-e-outros-quadros-pedem-cuidados.htm> Acesso em 08 de maio de 2020.

SARRIA, Ana Marcela. Este desconforto que você está sentindo é luto. Medium, 26 de março de 2020. Disponível em < https://medium.com/@anamarcela.sa/esse-desconforto-que-voc%C3%AA-est%C3%A1-sentindo-%C3%A9-luto-b480bb4644cc> Acesso em 09 de maio de 2020. 

 

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